Ácido lático 2

Matéria originalmente publicada na edição 51 da Revista SuperAção

Por Ricardo D’Angelo, treinador de atletismo do Clube BM&F.

Continuamos, nesta edição, com o tema do ácido lático. Um importante argumento neste debate em que coloca o ácido lático em posições opostas (culpado ou inocente?) é que, por um lado, é possível observar fadiga muscular enquanto a concentração de ácido lático no músculo se mantém baixa e, por outro, pode-se observar ausência de fadiga quando sua concentração no músculo é alta. Por exemplo, ao final de uma corrida de 100km, uma prova com demandas específicas, o nível de fadiga é alto, mas a concentração de lactato sangüíneo é pouco acima do estado de repouso. Além disso, pessoas que sofrem da doença de McArdle’s são incapazes de produzir (e assim acumular) ácido lático e são propensas a sofrer de fadiga muscular. Assim, a fadiga muscular pode estar acompanhada por um baixo nível de ácido lático, ou até mesmo sem a presença do mesmo.

Analisando outro aspecto, se um esforço isométrico é realizado na musculatura dos quadríceps até a exaustão (por exemplo, o ‘exercício da cadeira’: costas contra a parede), a fadiga reduz a força temporariamente. Entretanto, essa fadiga rapidamente desaparece e é eliminada quase que totalmente após 2 minutos de recuperação. Após este período, o músculo poderá novamente produzir a potência inicial. Quando observamos o grau de acidose no músculo, notamos que está aumentado consideravelmente durante a contração isométrica. Com isso, pode-se sugerir a hipótese que afirma que o ácido lático é responsável pela fadiga. Contudo, durante o período de recuperação, o grau de acidose no músculo retorna lentamente ao normal. Conseqüentemente, 2 minutos após a conclusão do exercício, o grau de acidose permanece muito alto, porém, desde que o músculo possa novamente produzir sua força inicial, a fadiga é eliminada. Por essa razão, é difícil abraçar a idéia de que o aumento do ácido lático no músculo causa fadiga, uma vez que pode ser observado um alto grau de acidose sem fadiga.

“A presença de ácido lático no músculo causa rigidez e dores musculares.” DOMS (Delayed onset muscle soreness) é a sigla usada para identificar aquelas dores que aparecem um dia ou dois após um esforço intenso não familiar. Esse tipo de dor ocorre principalmente quando o exercício requer contrações musculares excêntricas (contrações enquanto os músculos estão se alongando, absorvendo o impacto de uma queda com carga). Essas dores musculares não se relacionam com a presença de ácido lático nos músculos. Algumas vezes, o ácido lático é acompanhado por dores musculares, mas é também possível vir acompanhado sem dor muscular e vice-versa. Estudos em laboratórios fornecem evidências que confirmam isto. Em um determinado estudo, os sujeitos corriam por dois testes intervalados (9 x 5 min a 7,5 mph, com 2 min. de recuperação): no primeiro, sem inclinação e, no segundo, com inclinação de 10% na descida. A corrida plana (alta concentração de lactato) não gerou dores musculares. Em contraste, no dia seguinte após o teste da corrida em descida (baixa concentração de lactato) os sujeitos sofreram dores musculares severas (SCHWANE et al., 1983). Esse processo é muito bem conhecido por pessoas que correm por percursos acidentados, com subidas e descidas: correr no plano e em subida não causa rigidez muscular, mas correr na descida sim, por conta do número elevado de contrações excêntricas. Isso causa maior prejuízo à musculatura porque, o número de fibras musculares solicitadas para produzir a contração de uma específica tensão é 4 a 8 vezes maior para uma contração excêntrica como oposição a uma contração concêntrica. A tensão pela qual cada fibra é submetida é muito elevada e é essa a causa dos microtraumas e as inflamações. Essa é uma inteligente demonstração que o ácido lático não é responsável pelas dores musculares.

Resumindo: os diversos tipos de fadiga experimentados pelos corredores dependem de uma combinação de causas e de um tipo de esforço. Porém, nada prova que o ácido lático ou o lactato são os únicos causadores de fadiga, nem mesmo uma das maiores causas de alguma dessas formas de fadiga.

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