DOR NO JOELHO?

Por Julianne Cerasoli 

É o problema nº 1 dos corredores com dores no joelho, mas não é o fim do mundo. A condromalácia é chata de tratar, mas é controlável e pode, se bem acompanhada, conviver com treinos e provas.

Se você sente algum incômodo enquanto corre ou mesmo em descanso, ou ouve barulhos, sente fricções, como se estivesse faltando óleo no motor de seu joelho, é hora de procurar um especialista, pois talvez você tenha condromalácia patelar. Trata-se de uma inflamação seguida de amolecimento da cartilagem articular que, se não tratada logo, poderá evoluir e tornar-se grave, levando à incapacidade do joelho.

As causas são diversas, e provavelmente será difícil investigá-las. O que pode ser a consequência de uma queda, também é possível que seja resultado de herança genética, desalinhamento do quadril, da patela ou mesmo pé chato, falta de alongamento, ter determinados músculos da coxa mais desenvolvidos que outros, até excesso de treinamento.

A corrida entra nesse quadro como agravante se a pessoa já tem algum desequilíbrio biomecânico ou muscular – ou os dois. “Isso devido ao impacto e à movimentação do joelho durante a atividade. Portanto, continuar correndo não aumenta o desgaste em si, mas piora a inflamação e a dor. A genética tem certa culpa, mas o desgaste tem outros motivos. Treinar sem condição muscular adequada e a falta de alongamento na frente da coxa são fatores principais”, avalia o ortopedista José Marques Neto.

E, para aqueles que preferem nem ir ao médico para não descobrir que há algo de errado e só marcam consulta quando simplesmente não conseguem colocar o pé no chão, esperar a situação se agravar só vai fazer com que o tratamento demore mais. A condromalácia não tem cura, apenas controle. E, muitas vezes, sem esse controle, ela pode se tornar uma artrose, ou seja, levar à degeneração completa da cartilagem. “A condromalácia não vai causar propriamente uma artrose, embora possa contribuir para isso”, acredita Joel Tedesco, assistente doutor da Clínica Médica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Mas ninguém gostaria de arriscar correr sem cartilagem, literalmente com um osso batendo no outro.

A demora para colocar um médico em ação muitas vezes se dá porque a dor, em estágios iniciais, não é tão forte, não faz você parar de treinar. É daquelas que, quando o corpo está quente, fica sob controle. O problema é que a condromalácia tem quatro níveis e, deixando-se levar pela vontade de treinar, você pode acabar com uma dor profunda e localizada quando faz outras atividades, como subir e descer escadas, andar muito tempo com o salto alto ou ficar com os joelhos flexionados por longos períodos, como quando fica de pernas cruzadas. “Se o corredor não mudar os hábitos e tentar melhorar a sua biomecânica durante a corrida, certamente ele sentirá novos sintomas. Esse indivíduo poderá desenvolver uma artrose precoce devido a esses desgastes”, alerta Hélcio Figueiredo, especialista em fisioterapia traumato-ortopédica e sócio diretor da Total 1 Fisioterapia.

Entre as atividades listadas acima, estava o salto alto. Não é por acaso. Mulheres são as principais vítimas dessa doença. “Metade dos casos de mulheres que atendo no consultório são condromalácia”, afima Neto. Elas representam metade das queixas. Isso porque têm maior predisposição biomecâmica para isso. Há uma espécie de trilho por onde o osso deve correr enquanto realiza os movimentos de flexão e extensão. Se a patela se desloca para os lados, geralmente para fora, o atrito é aumentado. Isso pode ser consequência de uma compensação gerada por um quadril mais largo – aí entram elas – ou mesmo por diferença de forças entre os músculos (vasto lateral x vasto medial).

Essa questão muscular, por sua vez, pode ser resultado de um treino mal gerenciado. “Em casos de erros em treinamentos podem estar envolvidos tipo de tênis inadequado, corridas em terrenos irregulares, instabilidade patelar, fortalecimento excessivo de algumas musculaturas sem o devido alongamento, provocando desequilíbrios musculares, o que geraria um desalinhamento patelar, levando ao atrito da parte posterior da patela com a superfície articular lateral do fêmur e, consequentemente, um desgaste da cartilagem”, lista Figueiredo. “A condromalácia, ou condropatia patelar, pode ter diversas causas, como alterações na formação óssea (displasia troclear femoral), alterações no alinhamento de quadril, um aumento do chamado ângulo Q, geno valgo, ‘joelhos para dentro’, tipos e alinhamentos de patela, tipos de pisadas, entre outras.” Complexo? Ainda mais se pensarmos em outros problemas comuns em corredores. “Envolve muitas articulações e devemos sempre fazer o diagnóstico diferencial de outros tipos de patologias como, por exemplo, a síndrome do atrito da banda iliotibial, a tendinite patelar, entre outras.”

Tratamento é polêmico

À primeira vista, o tratamento é bem mais simples que a investigação das causas. Gelo e repouso durante o período de inflamação – o que inclui qualquer movimento que provoque dor, até subir escadas. “Os tratamentos com fisioterapia ajudam a melhorar a dor, especialmente a crioterapia”, aponta Tedesco. “Os tratamentos fisioterapêuticos são essenciais, mas programas de tratamento específicos e individualizados com medidas antiinflamatórias e analgésicas, um treinamento muscular específico, orientações sobre treinos e tênis adequados são essenciais. A crioterapia é um excelente analgésico e antiinflamatório, na fase aguda terá um bom resultado, porém, só ela não irá resolver o problema, que possui diversas causas. Deve-se examinar o paciente para traçar o melhor tratamento ao corredor”, completa Figueiredo.

Entretanto, o uso de medicamentos ainda não é unanimidade. “Tratamentos à base de compostos de condroprotetores ainda são muito questionados pelos médicos. Na prática, alguns de nossos pacientes que usaram relatam melhora e outros dizem não ter sentido nenhuma diferença. Como se trata de uma terapia relativamente nova, ainda temos que estudar e aprofundar mais em pesquisas para verificar os benefícios a longo prazo, assim como os prejuízos (se existirem). Lembrando sempre que qualquer medicamento deve ser prescrito por um médico. Sugiro passar por uma avaliação de um ortopedista ou médico do esporte para verificar a necessidade de uso”, afirma Figueiredo. Neto afirma que costuma prescrever o medicamento. “Na verdade, os condroprotetores só são considerados remédio no Brasil, têm a venda livre na Europa, por exemplo. É uma substância que promove a tentativa de regeneração da cartilagem. Eu acredito que ajude.”

Saindo da fase aguda, de dor, o melhor tratamento é o fortalecimento muscular. “Trabalhar a musculatura da região é fundamental no auxílio para a recuperação, mas exercícios com sobregarcas precisam ser cuidadosamente programados de acordo com a gravidade da lesão”, resume Tedesco.

Há quem possa pensar: mas não foi o próprio exercício que causou a condromalácia? De fato, um músculo alongado e fortalecido de maneira equilibrada é a solução para o problema, mas como conseguir isso ainda gera discussões entre os especialistas.

Uma das opções é trabalhar com exercícios isométricos, ou seja, sem movimento. Eles forçam a patela de maneira mais suave e gradativamente fortalecem os músculos. Os exercícios escolhidos devem ser aqueles que mexem com os quadríceps, em especial o músculo vasto medial oblíquo, isquiotibiais, flexores do quadril e abdutores, pois são os responsáveis pelos movimentos de extensão e abertura da perna e flexão do quadril.

O fisioterapeuta indica ainda o uso de bandagens funcionais para maior segurança. “Para ajudar no tratamento é costume em nossa clínica usarmos esses aparatos e kinesio taping (bandagens adesivas que são coladas próximas à região lesionada, muito usadas entre atletas atualmente). Trabalhamos também musculaturas do quadril para estabilizar a pelve (médio glúteo), fazemos alongamentos de panturrilhas, solear, psoas, quadríceps, tensor da fáscia lata (região lateral da coxa), exercícios pliométricos e exercícios proprioceptivos. Tudo isso é necessário para uma boa reabilitação.”

Voltando a correr

Após essa via crucis, é hora de voltar a correr. Isso, é claro, se o nível de condromalácia não for muito grave. Há a possibilidade de que um esporte com tanto impacto tenha que ser deixado de lado, por isso a importância de não adiar o tratamento para que não chegue a esse ponto dramático. “Quem tem desgaste da cartilagem precisa ser avaliado por um especialista. Realizando um exame apropriado pode-se determinar quais tipos de atividade física são mais seguros. Com a condromalácia no nível mais grave é muito perigoso correr, pois o problema pode piorar muito ou causar lesão em outras regiões além da condromalácia. Quando o problema é menos grave precisa estar bem orientado para correr muito lentamente e por curto tempo”, alerta Tedesco.

O que não dá para fazer, em qualquer nível, é voltar a correr mesmo com dor. “É necessária a interrupção do treino, pelo menos até que os sintomas dolorosos e o quadro inflamatório diminuam e um treinamento muscular específico seja feito. Porém cada caso é um caso, tem que se respeitar a individualidade de cada paciente, deve ser avaliado qual o grau de comprometimento da cartilagem. Em casos mais avançados muitas vezes já ocorreu tanto atrito na cartilagem que ela sofre erosão e se desprende, tornando-se um corpo livre que irá ocupar espaço na articulação gerando dor, desconforto para execução de alguns movimentos e até mesmo o travamento do joelho”, explica Figueiredo.

O especialista afirma que, nesses casos mais graves, uma cirurgia poderia ser feita para limpar a articulação, mas o que vê no dia a dia é cada vez mais pessoas se beneficiando do tratamento conservador. “Posso citar o exemplo de uma paciente da Total 1 Fisioterapia que possui condropatia patelar grau 3 e 4 nos joelhos e no momento pratica musculação, alongamentos e caminha 16km no fim de semana, totalmente assintomática. Claro, tudo isso fruto de um prévio tratamento fisioterapêutico específico.”

Assintomática quer dizer que a condromalácia continua lá. “Por isso falamos em controle. Pois ela pode não incomodar, mas não desaparece. Se fizermos exames, podemos ver as fissuras, mesmo que o paciente não sinta nada”, conta Neto.

A volta aos treinos deve ser muito bem dosada. “Sugiro sempre após um tratamento específico e alta do paciente, intercalar os treinos, por exemplo, variar tipos de terrenos asfalto, areia e grama, evitar sempre nas praias a inclinação no terreno provocada pelas ondas ou qualquer outro tipo de terreno irregular. Isso promove uma gama de estímulos ao corredor. Dentro do treino especificamente, variar períodos intervalados com contínuos, praticar musculação e alongamentos com frequência a fim de trabalhar melhor as musculaturas envolvidas no processo, dando melhor suporte às articulações. Quanto ao tipo de tênis a ser usado sugiro uma avaliação prévia de pisada com um profissional especializado, com a análise de pisada por meio da posturologia e verificar onde pode existir um desequilíbrio e se isso interfere na pisada e na postura dele; então essa correção é feita por meio de palmilhas, confeccionadas e moldadas exclusivamente para aquele determinado corredor, se necessário.”

A chave é a paciência. “Tem que voltar aos poucos, com planilha inferior, aumentando progressivamente. É possível voltar ao nível em que se treinava anteriormente, codromalácia não é tão grave, mas é chata de tratar”, finaliza Neto.

Sintomas:

> Dor (sentado, especialmente com as pernas cruzadas, andando, em escadas);
> Crepitação ou barulhos quando estende o joelho;
> Falseio;
> Travamento.

Graus:

I : amolecimento da cartilagem
II : fragmentação e fissura da cartilagem em uma área menor ou igual à aproximadamente 1,5 cm (1/2 inch)
III: fragmentação e fissura da cartilagem em uma área maior ou igual à aproximadamente 1,5 cm (1/2 inch)
IV: erosão da cartilagem com exposição do osso subcondral

Causas da Condromalácia:

O que podemos controlar:
> desequilíbrio muscular;
> tipo de tênis inadequado;
> corridas em terrenos irregulares;
> instabilidade patelar;
> músculos muito fortes e pouco alongados;
> overtraining.

Fatores genéticos:
> alterações na formação óssea (displasia troclear femoral);
> alterações no alinhamento de quadril;
> aumento do chamado ângulo Q;
> joelho geno valgo ou ‘para dentro’.

Agachamento pode curar o joelho?

A fase mais importante do tratamento da condromalácia patelar é o fortalecimento muscular, principalmente do vasto medial oblíquo. Mas que exercício isola esse grupo muscular? Provavelmente nenhum. Os mais eficientes seriam agachamento e cadeira extensora, justamente os mesmos que comprimem a patela. A solução é controlar as angulações. “Não pode nem estender tudo, nem flexionar tudo”, resume José Marques Neto. Uma dica é fazer os exercícios de cadeia cinética fechada (como o agachamento e o leg press) num ângulo de 0º a 50º, ou seja, sem agachar tudo, e os de cadeia aberta (cadeira extensora) entre 50º a 90º, sem estender tudo. “Hoje, em nossa prática clínica costumamos utilizar exercícios em cadeira extensora, sim, porém, limitamos a angulação para melhor conforto e controle da dor. Costumo usar também agachamentos. Muitas pessoas irão pensar, mas agachamento? Não irá sobrecarregar muito? A resposta é, depende da fase da doença do paciente, da dor e da angulação. Esse exercício promove uma contração, tanto da região anterior, quanto posterior da coxa, provocando um equilíbrio durante a excursão da patela”, aponta Hélcio Figueiredo.

Matéria publicada originalmente na Corredores S/A 88

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152 opiniões sobre “DOR NO JOELHO?”

  1. Olá… descobri que tenho condromalacia de nível IV a 5 meses. Fiquei muito chateada, pois treinava fazia 1 ano. Logo perdi massa magra e comecei a ficar depressiva, mas não parei de treinar. Mas tudo sob orientação e treinos mais leves. Ainda sinto algumas dores, acho que causada por alguma angulação errada. O problema é que na academia tem vários instrutores e ficam dando palpites errados.
    Tomo condroflex todos os dias. Essa medicação é distribuída gratuitamente nas redes publicas de saúde. Mas não consegui. Então tive que comprar. Gastei uma grana com farmácias que me enganaram. Diziam que na compra de 2 caixas ganharia uma, isso se eu fosse cadastrada no laboratório que fabrica o remédio. Esse cadastro é a própria farmácia que faz. Logo depois, descobri que na verdade teria direito a 2 caixas ao invés de uma. O laboratório repassa as duas, mas eles ficam com uma para obter lucro.

  2. Maxilane, não temos informações sobre esta prática entre farmácias e laboratórios. De qualquer maneira, não é recomendado que você tome o remédio por longos períodos. Sobre o treinamento, será que o médico que acompanha o seu caso, ou fisioterapeuta, não podem indicar exercícios básicos ou passar instruções pontuais quanto aos movimentos e/ou angulações que você podem fazer?

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